18/11/2015

Ligações

LEITURA CRÍTICA ––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– Cid Seixas

Ligações perigosas

            Emiliano José é um nome lembrado tanto pela seriedade dos textos publicados em jornais brasileiros quanto pelo livro Lamarca, o Capitão da Guerrilha, que alcançou diversas edições.
            Seu trabalho mais recente, Imprensa e poder: ligações perigosas, tem um título ao mesmo tempo objetivo e ironicamente sugestivo, ao tomar como referência a obra Laclos Les liaisons dangereuses.
O que destoa é um subtítulo explicativo que aparece na folha de rosto: “A CPI do PC, do Collor e do Orçamento numa análise inédita”. Como a contracapa do livro traz um texto que dá conta dos principais tópicos do trabalho, este rabicho da folha de rosto, além de inexpressivo é redundante. Mas o livro tem pontos altos que fazem o leitor nem perceber o que não conta.
Trata-se de um texto de análise sociológica e, ao mesmo tempo, de ética jornalística. As reflexões do autor valem como tópicos estimulantes para o amadurecimento de questões éticas, o que é reforçado pelas cinco entrevistas com Antonio Fausto Neto, Augusto Fonseca, Bob Fernandes, Clóvis Rossi e João Santana Filho. Chamo atenção do leitor especialmente para o depoimento deste último que nos dá lições de ética profissional de inestimável valor.
            Emiliano José dirige o foco da sua discussão e das depoimentos dos cinco jornalistas entrevistados para o envolvimento e a cumplicidade da chamada grande imprensa com as peripécias neo-liberais do ex-presidente Fernando Collor. Como a imprensa saiu glorificada com o episódio do impedimento do presidente, Emiliano abandona as celebrações ufanistas de alguns e parte para uma reavaliação dos fatos.
            Sabemos que, aqui e em toda parte, a ética jornalística é posta em suspenso pelos interesses do veículo enquanto empresa e negócio. Alguns órgãos de comunicação têm diversificado os seus investimentos, tornando-se pontas-de-lança de importantes grupos empresariais. Este fato é um complicador do problema que, mesmo no pertinente estudo de Emiliano José, não é suficientemente abordado. O livro analisa o comportamento da imprensa sem fazer uma distinção entre a atitude dos seus profissionais e as imposições dos veículos, mais interessados nos gráficos do setor contábil.
            Uma prova contundente da ruptura entre o trabalho jornalístico e as estratégias empresariais do jornal é o florescimento da imprensa alternativa durante os momentos de supressão dos direitos democráticos. Nos longos anos que se seguiram ao golpe de 64, os neo-liberais então reunidos sob outros rótulos estabeleceram as regras do jogo e da “livre concorrência” marcando as cartas do baralho. As células não contaminadas na nação só podiam respirar através dos nanicos. A imprensa alternativa, assim chamada, era a alternativa de preservar a dignidade profissional.
            Isto nos permite ver com mais nitidez a necessidade de separar os imbricados caminhos da empresa jornalística e do jornalista. A análise destes dois vetores como um único fato já aparece no capítulo “Um silêncio conivente”, onde através de uma ligeira perspectiva da questão em diversos momentos da história da República, o autor situa as relações de intimidade entre a imprensa e o governo. A síntese da questão por um jornalista-empresário, Samuel Wainer, nos mostra como os interesses das empresas jornalísticas tendem a reduzir os dois vetores a uma só linha de raciocínio, enquanto a separação ajuda a aprofundar a análise.
            Mas o livro Imprensa e poder: relações perigosas tem um objetivo preciso e limitado: uma análise de caso. Ou melhor, uma análise contrastiva dos casos Veja e IstoÉ. O autor pretendeu estudar o papel das duas principais revistas do país, tomadas como amostras da Imprensa Brasileira, num dos momentos mais importantes de toda a história do Brasil, o início da década de noventa.
Num raro momento de dispersão das elites, após ter se esvaído a ditadura militar posta a seu serviço, a esquerda conseguiu sensibilizar a nação para a importância de levar um líder operário à presidência da república. A ameaça de um avanço histórico sem precedentes, no sentido de aperfeiçoamento do capitalismo através da diminuição dos desequilíbrios sociais, reaglutinou as forças concentradoras do capital. Neste momento, algumas empresas de comunicação se voltaram para os fluxogramas do departamento comercial e iniciaram as relações perigosas analisadas por Emiliano José.
            O título de um dos capítulos do livro, “Veja o entusiasmo por Collor”, é uma síntese conclusiva do mesmo. O autor nos mostra o engajamento de Veja com o projeto do atlético e bem falante manequim vestido pelos grandes grupos empresariais e jornalísticos do país. Mesmo quando o governo quebra a segurança do sistema financeiro e do direito de propriedade privada, a grande imprensa continua fiel aos seus acionistas. Veja, num belo exercício de cinismo sofístico, diria que as medidas “não mexeram com a vida daqueles que estão fora do over, da poupança e até das contas bancárias – a maioria dos brasileiros”. Elas atingem “aqueles que Collor escolheu como seus alvos durante e depois da campanha: as elites”.
Shakespeare, pela boca de Marco Antônio já insistia: ”Mas Brutos é um homem honrado”. Nelson Rodrigues diria: “Mas a imprensa é imparcial”.
É este intricado jogo de interesses que é discutido e trazido a tona com honestidade e ética, além da possível objetividade por Emiliano José. Imprensa e poder: relações perigosas é um livro fundamental para os profissionais do jornalismo, mas ultrapassa em muito esta esfera de interesse, devendo ser lido por toda e qualquer pessoa que se pretenda bem informada. Aqui o leitor tem acesso a uma tipo de discussão que não interessa nem aos grupos econômicos detentores do poder nem à grande mídia. Interessa apenas aqueles que ainda cultivam o desejo da liberdade.

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Ligações perigosas. Artigo crítico sobre o livro Imprensa e poder: ligações perigosas, de Emiliano José. Salvador, EDUFBA, São Paulo, HUCITEC, 1996, 286 p. Coluna “Leitura Crítica” do jornal A Tarde, Salvador, 2 set. 96, p. 7.